ARTIGO: INUNDAÇÕES NO RIO DE JANEIRO E AS LIÇÕES DA NATUREZA.

ARTIGO: INUNDAÇÕES NO RIO DE JANEIRO E AS LIÇÕES DA NATUREZA.

As inundações que ocorreram no Rio de Janeiro nos últimos dias e as áreas alagadas que ainda permanecem, evidenciam de forma dolorosa os impactos que as mudanças climáticas já estão produzindo. Anunciam o que ainda pode vir com as perspectivas do aumento do nível do mar.

A ressaca que avança sobre as pistas da orla, do Aeroporto Santos Dumont, da Lagoa Rodrigo de Freitas e das áreas de baixada, como as de Jacarepaguá, Barra da Tijuca e Vargens, são alertas evidentes que a própria natureza nos dá de que precisamos agir rápido. E, em alguns casos, parar de impactar negativamente, como no caso das novas impermeabilizações do solo e de novas construções em áreas alagáveis. A ação precisa ter novo rumo, nova direção, diferente do que vem sendo realizado até então.

O excessivo índice de impermeabilização do solo por meio de vias e novas construções, reduzindo as áreas permeáveis agrava ainda mais a questão dos alagamentos.

As conseqüências são para todos, pois além das vidas que se vão, os prejuízos são de várias ordens: desgastes físicos, políticos, sociais, econômicos, culturais e naturais.

É urgente a mudança de comportamento perante o modo de pensar e fazer a cidade. É urgente a adaptação da cidade aos fenômenos relacionados às mudanças climáticas. A velocidade com que estes fenômenos vêm ocorrendo é maior do que a capacidade humana de reparação dos estragos.

O Planejamento Urbano macro, micro e suas ferramentas: Planos diretores, leis de uso e ocupação do solo são fundamentais neste processo, porém estas precisam sair do papel, precisam ser adotadas e implementadas e para isso é necessário vontade política.

A existência pura e simplesmente não adianta. É preciso pô-las em prática e estes devem levar em consideração o interesse social da maioria e não apenas os interesses econômicos e políticos. É preciso que a cidade seja enxergada como um Sistema Complexo, onde cada parte e cada setor está interligado, repercutindo nos demais.

O que ocorreu no Rio de Janeiro nos mostra como esses efeitos estão integrados e impactam diversos níveis da existência humana e das redes urbanas.

E preciso uma revolução de valores. Uma mudança completa na forma de enxergar a cidade e a sua relação direta com a natureza. Os homens sempre agiram como se pudessem dominar a natureza, mas esta nos mostra, a todo o momento, que tem muito mais força do que nós. Precisamos olhar a questão por outro prisma. Torna-se premente adaptar o que já existe e o que vai ser construído, renaturalizar os espaços e rever antigos paradigmas de ocupação.

A restrição às edificações em áreas de risco é apenas uma das inúmeras possibilidades. Mapear áreas de risco não apenas nas encostas. Também é necessário mapear as áreas alagáveis. Mapear áreas que podem servir de áreas de retenção de águas, mapear para potencializar os níveis de permeabilidade das áreas livres e utilizar edificações como coadjuvantes no processo, de forma a retardar a chegada da água no solo. A infra-estrutura verde com biovaletas, tetos e paredes verdes, reservatórios e jardins de chuva, pisos drenantes com maior permeabilidade e tantos outros também podem ser excelentes aliados nesse processo.

Enxergar e agir neste novo modelo se faz urgentíssimo para tornarmos as cidades mais adaptadas às mudanças climáticas, evitando tantos danos e a perda de tantas vidas.

Fonte: Vitruvius
Referências bibliográficas

AHERN, J.; KATO, S. “Green Infrastructure for Cities: The Spatial Dimension”. In: BUNCE, R.G.H., JONGMAN, R.H.G., HOJAS, L. and WHEEL,S. (Eds) 25 years Landscape Ecology: Scientific Principles in Practice. Resumo do 7o. Congresso Mundial IALE – International Association of Landscape Ecology, Iale Publication Series. Wageningen, Holanda, 2007. p.287

SANTANA, Gisela Verri de. Lançamentos imobiliários na Freguesia: consumo da habitação na hipermodernidade. O marketing do discurso verde e do lazer /Gisela Verri de Santana – 2008. 404f. Disponível em

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cp086838.pdf

Sobre a autora
Gisela Santana é Arquiteta, Urbanista, Mestre em Desenvolvimento Urbano e Regional, Doutora em Psicologia Social e Colaboradora do Inverde: www.inverde.org.

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